A eliminação do Brasil para a Noruega neste domingo, por 2 a 1, nas oitavas de final da Copa do Mundo, não é uma zebra. É a consequência lógica de um futebol que parou de pensar enquanto o mundo evoluía. O número que resume a tarde no MetLife Stadium diz tudo: a Noruega teve 66% de posse de bola. Uma seleção que voltava a uma Copa depois de 28 anos tocou a bola na cara do país que se acostumou a se chamar de país do futebol.

O Brasil correu atrás, apostou em lampejos e caiu com gols sofridos aos 34 do segundo tempo e nos acréscimos, quando já não havia plano nenhum além do abafa.

Brasil eliminado: a queda para a Noruega escancara um projeto falido
Foto: Nelson Terme / CBF

São 24 anos sem título mundial. A geração que assistiu ao penta em 2002 já tem filhos que nunca viram o Brasil campeão. E a cada ciclo a pergunta se repete, sempre com respostas erradas: troca-se o técnico, convoca-se o novo menino-prodígio, promete-se reconstrução. O problema nunca foi o nome do treinador. O problema é que o Brasil terceirizou seu futebol e desmontou as bases que o sustentavam.

O meio-campo que o Brasil abandonou

A derrota para a Noruega materializa a falência mais evidente: o Brasil eliminado não forma mais meio-campistas que comandem um jogo. Casemiro, aos 34 anos, seguiu como referência da posição porque não surgiu ninguém para tomar o lugar. Enquanto isso, o meio norueguês de Odegaard, Berge e Berg ditou o ritmo da partida do início ao fim. O país que produziu Gerson, Falcão, Toninho Cerezo e Zico hoje exporta laterais e centroavantes, mas não constrói cérebros. A base brasileira ensina o menino a driblar para viralizar, não a pensar o jogo.

Talentos isolados não vencem Copas

O Brasil chegou a esta Copa, mais uma vez, apostando que Vinícius Júnior resolveria sozinho. É o mesmo raciocínio que já falhou com Neymar em três Copas. Times europeus organizados anulam individualidades com estrutura coletiva, e foi exatamente o que a Noruega fez: fechou os corredores, dobrou a marcação e esperou o Brasil se frustrar. As seleções que dominaram as últimas décadas, da Espanha de 2010 à Argentina de 2022, tinham ideias claras de jogo às quais os craques serviam. No Brasil, inverteu-se a lógica: monta-se o time para servir ao craque, e quando o craque tem uma tarde ruim, não sobra nada. Apenas o Brasil eliminado.

A sangria precoce da base de um Brasil eliminado

Cada vez mais cedo os melhores jovens brasileiros deixam o país. Endrick e Rayan, presentes no elenco, saíram do futebol brasileiro antes de completarem sequência como titulares por aqui. O menino brasileiro se forma taticamente na Europa, com a cabeça de jogo europeia, e o futebol nacional vira um entreposto comercial: revela, vende e assiste de longe. O Campeonato Brasileiro, esvaziado de suas joias, deixou de ser ambiente de formação de seleções campeãs.

Foto: Nelson Terme / CBF

Uma CBF que não faz projeto, faz gestão de crise

Nada disso se resolve porque não há projeto. A CBF viveu os últimos anos entre disputas de poder, trocas de comando e decisões improvisadas, e a escolha de Carlo Ancelotti, um nome respeitadíssimo, veio como aposta salvadora, não como parte de um plano de longo prazo. Alemanha em 2014, França em 2018 e Espanha em 2010 venceram após reformulações estruturais de uma década, alinhando base, clubes e seleção. O Brasil segue trocando a peça mais visível e mantendo a engrenagem quebrada. E claro, o Brasil eliminado.

O futuro passa por admitir o óbvio

O Brasil não é mais protagonista do futebol mundial, e admitir isso é o primeiro passo de qualquer reconstrução séria. Enquanto a eliminação para a Noruega for tratada como acidente, e não como sintoma, o ciclo vai se repetir em 2030. O talento individual brasileiro segue existindo. O que não existe é país do futebol sem projeto de futebol.